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Escrito por Llÿr às 16:51:05
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Quando era um filhote, eu o distraia com minhas travessuras e o fazia rir.

 

Você me chamava de sua criança e, apesar de um certo número de sapatos mascados e um par de almofadas destruídas,
 eu me tornei sua melhor amiga. Sempre que eu fazia algo errado, você chacoalhava seu dedo para mim e dizia:
 "Como você pôde?" - mas depois você se arrependia e me rolava no chão para me coçar a barriga. Meu treinamento
demorou um pouco mais do que o esperado porque você estava ocupado demais, mas, juntos, nós conseguimos dar um jeito.

Eu me lembro daquelas noites em que me aninhava a você na cama e ouvia suas confidências e sonhos secretos - e
 acreditava que a vida não poderia ser mais perfeita. A gente fazia longos passeios e corridas no parque,
andava de carro e parava para um sorvete (eu ganhava só a casquinha porque "sorvete não faz bem para cães"
 você dizia) e eu tirava longos cochilos ao sol enquanto aguardava sua volta para casa ao final do dia.

Aos poucos você passou a gastar mais tempo no trabalho e com sua carreira e levava mais tempo procurando
 por uma companheira humana. Eu esperei por você pacientemente, confortei-o em suas mágoas e desilusões,
 nunca o repreendi por suas escolhas ruins, e vibrei de alegria nas suas vindas para casa e quando você se apaixonou...
 Ela, agora sua esposa, não é uma "apreciadora de cães" - ainda assim eu a recebi em nossa casa, tentei
 mostrar-lhe afeição, e a obedeci. Sentia-me feliz porque você estava feliz.

Então vieram os bebês humanos e eu reparti com você o entusiasmo. Eu estava fascinada por seus tons rosados,
 seu cheiro, e queria muito cuidar deles também. Mas ela e você tinham medo de que eu pudesse machucá-los,
 e eu passei a maior parte do tempo sendo banida para outra sala ou para a casinha de cachorro..
Oh, como eu queria tê-los amado, mas eu me tornei uma "prisioneira do amor".

À medida que foram crescendo, me tornei amiga deles. Eles se agarravam ao meu pêlo e se levantavam
 sobre perninhas trôpegas, enfiavam os dedos em meus olhos, examinavam minhas orelhas, e davam beijos
em meu nariz. Eu adorava tudo isso e o toque de suas mãozinhas - porque o seu toque agora era tão raro - e
eu os teria defendido com minha própria vida, se fosse preciso. Eu me esgueirava para suas camas e escutava
 suas quietações e sonhos secretos, e juntos esperávamos pelo barulho de seu carro no caminho.

Houve um tempo, quando alguém perguntava se você tinha cachorro, em que você tirava uma foto minha de sua
 carteira e contava histórias sobre mim. Nos últimos anos você apenas respondia "sim" e mudava de assunto.
 Eu passei de "seu cão" para "apenas um cachorro" e você reclamava de cada gasto que tinha comigo. Agora você tem
 uma nova oportunidade de carreira em outra cidade e vocês irão se mudar para um apartamento onde não permitem animais.
 Você tomou a decisão acertada para sua "família", mas houve um tempo em que eu era sua única família.

Fiquei excitada com o passeio de carro até que chegamos ao abrigo de animais. O local tinha cheiro de gatos
 e cães, de medo, de desesperança. Você preencheu a papelada e disse: "Sei que vocês encontrarão um bom lar
 para ela...". Eles deram de ombros e lançaram a você um olhar compadecido. Eles compreendem a realidade que
 espera um cão de meia idade, mesmo um com "papéis". Você teve que desgarrar os dedos de seu filho de minha
 coleira enquanto ele gritava "Não, papai! Por favor, não deixe que levem meu cão!". E eu me preocupei por
 ele, e com a lição que você tinha acabado de lhe dar sobre amizade e lealdade, sobre amor e responsabilidade,
 e sobre respeito por todo tipo de vida. Você deu um afago de adeus em minha cabeça, evitou meu olhar e,
 polidamente, recusou levar minha coleira e guia com você. Você tinha um tempo-limite para encarar e agora
 eu também tenho um.
Depois que você partiu as duas simpáticas senhoras que o atenderam comentaram que você provavelmente soube
meses atrás da mudança que ocorreria e não fez nenhuma tentativa de encontrar um novo lar para mim. Elas
 sacudirram a cabeça e disseram "Como você pôde?". Elas são tão atenciosas para nós aqui no abrigo quanto
seus ocupados horários permitem.
Elas nos alimentam, é claro, mas eu perdi meu apetite dias atrás. De início, sempre que alguem passava pelo
 meu alojamento, eu corria para a frente, na esperança de que fosse você - que você tivesse mudado de idéia - que
 isto fosse tudo um sonho mau... Ou eu esperava que ao menos fosse alguém que se importasse, alguém que pudesse
 me salvar. Quando percebi que não poderia competir com os alegres filhotes, inconscientes de seus próprios destinos,
 nas brincadeiras para chamar atenção, afastei-me para um canto distante e aguardei.

Ouvi seus passos quando ela veio até mim ao final do dia e a segui ao longo do corredor para uma sala separada.
 Uma sala deliciosamente silenciosa. Ela me colocou sobre a mesa, acariciou minhas orelhas, e disse-me para eu
não me preocupar. Meu coração se acelerou na expectativa do que estava para vir, mas havia também uma sensação
de alívio. A prisioneira do amor havia esgotado seus dias.

Como é de minha natureza, estava mais preocupada com ela. O fardo que ela carrega é demasiado pesado, e eu sei
disso, da mesma maneira que conhecia cada um de seus humores. Ela gentilmente colocou um torniquete em volta
 de minha perna dianteira, enquanto uma lágrima corria por sua face. Lambi sua mão do mesmo modo como costumava
fazer para confortar você há tantos anos atrás. Ela habilmente espetou a agulha hipodérmica em minha veia.
Quando senti a picada e o líquido frio se espalhou através de meu corpo, deitei a cabeça sonolenta, olhei dentro
 de seus olhos gentis e murmurei "Como você pôde?".

Talvez por ter entendido meu linguajar canino, ela disse "Sinto tanto!", abraçou-me e apressadamente explicou
que era seu trabalho fazer com que eu fosse para um lugar melhor onde não seria ignorada, ou maltratada ou
abandonada, nem ter que me virar para sobreviver - um lugar de amor e luz, tão diferente deste lugar terrestre.
 E com minha última gota de energia tentei transmitir -lhe com uma sacudidela de minha cauda que meu "Como você pôde?"
não era dirigido a ela.


Era em você, Meu Amado Dono, que eu estava pensando. Pensarei em você e esperarei por você eternamente.
Possa alguém em sua vida continuar a demonstrar-lhe tanta lealdade...



Escrito por Llÿr às 17:31:22
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Ainda que eu falasse a língua do homens.
E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria.

É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal.
Não sente inveja ou se envaidece.

O amor é o fogo que arde sem se ver.
É ferida que dói e não se sente.
É um contentamento descontente.
É dor que desatina sem doer.

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.

É um não querer mais que bem querer.
É solitário andar por entre a gente.
É um não contentar-se de contente.
É cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade.
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor.

Estou acordado e todos dormem todos dormem todos dormem.
Agora vejo em parte. mas então veremos face a face.

É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria.




Escrito por Llÿr às 22:59:39
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Sonhos

Oh minha vida
Está mudando todos os dias
De todas as maneiras possíveis
E oh meus sonhos nunca são exatamente como parecem
Nunca exatamente como parecem

Eu sei que já me senti assim antes
Mas agora eu estou sentindo ainda mais
Porque isso veio de você
E então eu abro os olhos e vejo
A pessoa caída aqui sou eu
Uma maneira diferente de ser

La...

Eu quero mais, impossível ignorar
Impossível ignorar
E eles se tornarão realidade, impossível não se tornarem
Impossível não se tornarem

E agora eu lhe digo abertamente
Você possui meu coração então não me machuque
Você é o que eu não pude encontrar
Uma mente totalmente incrível
Tão compreensiva e tão gentil
Você é tudo pra mim

Oh minha vida
Está mudando todos os dias
De todas as maneiras possíveis
E oh meus sonhos nunca são exatamente como parecem
Porque você é um sonho pra mim, um sonho pra mim



Escrito por Llÿr às 21:29:00
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ABRAÇOS

Tem ABRAÇOS de todo jeito, todo tamanho,
e que significam tantas coisas...
Tem o abraço que diz: "Sou muito feliz
porque tenho a sua amizade"
E tem abraços que querem dizer
"Eu tenho muito orgulho de você".
Tem abraços especiais para dizer
"Não existe no mundo ninguém como você".
Tem abraços ternos, abraços com carinho,
Para expressar os sentimentos tristes.
Abraços que murmuram "Sinto muito",
quando alguém precisa de um amigo.
Tem abraços para todas as ocasiões,
Todos com as suas razões.
Tem abraço manso, abraço de urso,
abraço grande e aquele abração.
Mas o melhor abraço
é um que diz
"Eu estou sempre pensando em você."
E tem o tipo especial
que você vai receber
Este abraço que diz
"EU AMO VOCÊ !"

São dois homens sim!!! Por quê?



Escrito por Llÿr às 02:53:28
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LÁGRIMAS...

As lágrimas são palavras
que não nasceram
Sentimentos que se calaram
São sorrisos que não vingaram
A fé que foi desmentida
pelo desespero.
 

 

Lágrima é a voz dos resignados
É o fruto da paz roubada
do peito ainda verde
Que se perdeu sem ser provado
Água que transbordou do leito e segue sem rumo.
 

 

Lágrima é o grito que não
pode ser ouvido
São reticências colocadas
no final de quem não quis continuar
É o momento de dar o nó na garganta
É a angustia expelida por fustigar
a alma de quem não pôde amar ...
 

 

As chuvas são lágrimas de uma
estrela que apagou
É a tristeza que cansou de
ficar no canto
É o canto de quem não
tem motivos
É o motivo de quem desistiu
e se entregou...
 

Deus fez a lágrima para expressar

o que o medo revela
O que a alegria não supera,
a verdade que não pode ser dita
A dor que não pode ser sentida
O destino que não pode ser mudado somente vivido...




Escrito por Llÿr às 05:05:29
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Soneto da Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure



Escrito por Llÿr às 15:16:48
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Anti Metamorfose



Existia uma borboleta. Naquele lugar existia uma borboleta. E não era uma borboleta qualquer... Era uma linda borboleta de grandes asas azuis pintadas com manchas coloridas.
Era um azul lindo, nunca visto, reluzente.

E ela voava contente por todos os cantos, embalada pelo vento morno da primavera, beijando as flores que se estremeciam de felicidade ao seu toque.
Não era uma borboleta qualquer.

Existia uma borboleta....
E um dia quando fazia um divertido vôo sobre o lago, viu sua imagem refletida. Onde estavam suas manchas coloridas?
Voltou mais vezes pra conferir o que não conseguia acreditar e acabou percebendo que não só as manchas sumiam, mas também sua cor.

Existia uma borboleta com asas azuis... Agora sobrou somente uma cor anêmica e desbotada, ensaiando um azul...

E num dia quente de verão, acordou com o corpinho dolorido e percebeu que lhe faltava uma asa. E logo em seguida a outra se foi.Não pôde mais voar.

Seus movimentos poéticos foram substituídos por rastejar.
E quando chegou o inverno, ela se viu num lugar escuro. Não tinha mais movimentos. Não tinha mais ar. Não podia ver nada. Estava num casulo, esperando o inverno passar.

Existiu uma borboleta...


Texto de uma amiga muito especial, Raven - D.P.G.



Escrito por Llÿr às 18:52:20
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Historinha do Passado


Minha infância teve cheiro de funcho e gosto de chá de maçã. Foi construída com blocos coloridos de Lego.
Teve casinhas de caixa de papelão e decoração de adesivos.

Eu comi sabonete, tinta de caneta e sal puro, mas recusei as colas coloridas e areia.
Teve a escola que eu odiava freqüentar, franja Cleópatra, cabelinho chanel.

Andei a cavalo muitas vezes, fingi doença pra ficar em casa e até comi beterraba e aipim frito. Hoje eu não como essas porcarias.
Minha infância não teve muitos sorrisos, nem vídeo game, nem banco imobiliário, nem dúzias de barbies.

Teve só uma piscina de plástico furada, uma bola gigante, retalhos de tecidos, bolinhos de terra e um quadro de escrever com giz.
Rabisquei na calçada, pulei, ao invés de caminhar, caí, raspei os joelhos.

Ganhei cicatrizes de arame farpado. Furinho no nariz de herança da catapora, que mais tarde perguntariam se era marca de piercing.

Teve uma prima cúmplice das casinhas de lençol, do assassinato de patinhos filhotes, dos copos de "sal de frutas", das guerras de travesseiro e das grandes invenções, como novos perfumes...
E agora nesse dia chuvoso, lembro de tudo isso, por quê?

Talvez a chuva tenha essência de nostalgia...
Talvez a gente passe a infância toda querendo crescer, pra descobrir, só bem tarde, que ser grande não tem tanta graça como se espera.



Escrito por Llÿr às 23:42:42
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             Último Dia 
 
            Era a última vez que aquele velho par de tênis sujos e rabiscados
            pisaria no pátio da escola. Se não fosse uma pessoa apática, sua
            reação seria imprevisível: cambalhotas de alegria por estar
            vivenciando o momento que tanto aguardou nos últimos anos em que
            "pagou meia no cinema" ou um sentimento de nostalgia por estar
            abandonando o seu "segundo lar". Ao invés disso, simplesmente
            encarou com a mesma indiferença a funcionária da escola. Não por
            arrogância, mas por puro déficit de amabilidade. Como o de costume,
            também ignorou a grande quantidade de carne humana viva que se pôs
            em seu caminho até a sala de aula, e seguiu sua jornada de alguns
            metros e alguns degraus. Entrou na sala, dirigiu-se à última
            carteira do canto, à SUA carteira e repousou as nádegas sentou-se.
            Era a última vez que iria aquecer aquele assento de madeira, repleto
            de assinaturas feitas com seu sósia - o "branquinho" - além de
            desenhos pouco... ahn... amistosos. Olhou com indiferença as
            cortinas rasgadas, mas não perguntou-se se elas sentiriam saudades.
            A moderna decoração das carteiras, constituída por chicletes de
            todas as cores, certamente não fariam a menor falta à garota. Deu de
            ombros. O chão... Ah, o chão não era o mesmo do primário, repleto de
            pontas de lápis coloridas. A garota tinha uma coleção de pontas,
            cuidadosamente extraídas dos vãos do chão e enegrecidas pela
            sujeira, que guardava dentro de uma cápsula de Kinder Ovo (guardava
            as pontas, e não as sujeiras. digo, as sujeiras iam junto, mas não
            era a intenção). Porém ela não se lembrou disso, e sua expressão
            permaneceu impassível. O dia transcorreu naturalmente. Ignorou a
            algazarra dos alunos e professores, uma espécie de comemoração pelo
            último dia letivo. Ignorou - como sempre ignorava as aulas. Era um
            dia normal para ela. Pichou sua assinatura em algumas camisetas, com
            a indiferença de quem picha um "foda-se" bem grande e torto na porta
            do banheiro. Cinco horas de aula, até o soar da última sirene
            estridente, que gritava seu último adeus, anunciando o fim do
            período. A garota permaneceu impassível. Pegou seu velho caderno
            cheio de desenhos mal-rabiscados e poemas de palavras mal
            escolhidas, juntou seu material e saiu, sem dizer adeus. O último
            passo do velho par de tênis no pátio da escola desencadeou uma
            lágrima. Lágrima?! Que nada, era um cisco! Sim, um cisco, um cisco
            inoportuno, apenas isso... Não olhou pra trás, nem se perguntou que
            raio de cisco imaginário fizera brotar-lhe aquela lágrima. E foi
            para casa... para nunca mais voltar.

ras|<unho



Escrito por Llÿr às 23:02:40
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 Teddy

 Teddy - um dia chamou-se assim. Os berros da garotinha que passeava
            com os pais na loja de brinquedos foi o primeiro indício de que seu
            lugar não seria mais a prateleira. "Você já tem muitos ursos de
            pelúcia!" - argumentou o pai. "Mas nenhum com chapéu!" - disse a
            garota, enquanto batia o pé no chão e apontava para Teddy. O chapéu
            tornava-o superior aos outros companheiros peludos; era o escolhido.
            Por fim, os pais cederam e Teddy (de "teddy bear", conforme a jovem
            aprendera nas aulinhas de inglês) ganhou o nome e um novo lar.

            Teddy foi abraçado, apertado, ninado, beijado, jogado; mesmo sem ter
            asas voou, chocando-se contra o teto e contra a cabeça da pobre
            empregada. A falta de delicadeza da garota logo custou um olho ao
            pobre Teddy. A mãe propôs uma cirurgia reconstrutiva, mas o olho de
            alguma forma foi parar atrás do sofá - e ninguém jamais soube disso,
            nem quando a empregada fez uma faxina na sala e o aspirador de pó
            aspirou também uma das vistas de Teddy. Pouco importava - a garota
            já se distraíra com sua nova - a sétima da coleção - Barbie.

            Por dias Teddy padeceu no fundo da caixa de brinquedos. Abandonado,
            esquecido - ele e seu chapéu. Nem mesmo a prateleira admitiria um
            urso caolho - devia permanecer escondido. Sem conhecer o verdadeiro
            afeto, conheceu a rejeição. Se possuísse lágrimas, elas rolariam
            pelo olho que lhe restou. Passaram-se dias, semanas, meses, até
            sentir novamente, por breves segundos, o calor humano: a mãe da
            garota agarrara-lhe o bracinho esquerdo e jogara-lhe dentro de um
            saco plástico, junto com outros brinquedos velhos e quebrados. O
            lixo seria seu novo lar.

            E lá jazeu Teddy. O urso de chapéu xadrez, cujo olho se perdera,
            dividia agora o ambiente com restos de comida, embalagens velhas,
            papel sujo... E pensar que um dia ele fora um belo brinquedo,
            abraçado pelos braços roliços de uma garota mimada e descuidada. Seu
            pêlo, que um dia foi branco, agora estava enegrecido pela sujeira.
            Sabia que passaria o resto de seus dias abandonado, pois sua
            aparência seria incapaz de conquistar o carinho de quem quer que
            fosse.

            Enganara-se novamente. Não tardou até que uma mãozinha áspera e
            encardida suspendeu o urso pelo braço direito. Com o olho que lhe
            restara, Teddy fitou quem o agarrara: cabelos desgrenhados, rosto
            sujo e olhar de quem muitas vezes fora atirada ao lixão dos
            rejeitados antes. Os olhos da garotinha iluminaram-se enquanto
            abraçava o urso - que rebatizou de Ursim. Sua mãe lhe batia, seu pai
            bebia, seus sete irmãos a ignoravam. Mas Ursim era seu amigo
            inseparável, confidente e fiel. Tinha um chapéu roto e lhe faltava
            um olho. Mas que importava? Ela o amava mesmo assim, e a recíproca
            era verdadeira. Se Ursim tivesse lágrimas, seriam de emoção. E
            ambos, tão acostumados à rejeição, pela primeira vez conheceram o
            verdadeiro significado do afeto.


Ras|



Escrito por Llÿr às 22:45:32
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